Quando eu era pequeno, costumava desesperar-me diante de qualquer situação que frustrasse algum plano meu: uma nota baixa no boletim, um brinquedo quebrado, um desentendimento com um coleguinha; tudo que me parecesse contrário ao fluir natural e pacífico angustiava-me de tal modo que eu chegava a ter a sensação de que aquilo nunca ia passar e, por vezes, viver me parecia desnecessário e sem sentido. Graças a Deus que existia mamãe. Ah, Dona Maria – meu consolo! Lembro-me certa vez em que papai estava me ensinando a andar de bicicleta... aconteceu o pior: havia uma pedra no meio do caminho. Eu perdi o controle e caí, ralando um dos joelhos no chão de cimento. No ápice daquela dor ardida e vendo o sangue em vermelho vivo escorrer pela minha perna, esgoelei-me e fui, aos prantos, pro encontro de mamãe. A dor parecia eterna, mas Dona Maria, usando de toda sua sabedoria medicinal, foi até a mercearia da esquina e comprou um picolé de chocolate. Foi quase instantâneo: bastou-me sentir o docinho gelado na boca, e a dor foi embora.
Hoje, na maturidade dos meus quarenta e oito anos, vejo como tudo era simples naquela época em que probleminhas se vestiam de monstros e me assombravam a noite inteira. Não havia dor que não sarasse com um beijo nem complicação que o tempo sozinho não resolvesse. Eu ainda nem sabia que existiam dores bem piores que as físicas: as da alma! Ninguém nunca me disse que viver era fácil, mas eu não fazia idéia de o quão difícil é. São tantos desejos pendentes, planos frustrados, feitos inacabados, vontades retidas, saudades esquecidas... e tudo isso dói lá no fundo de uma forma que nem o mais delicioso picolé do mais suculento chocolate poderia acalmar.
Nós vamos crescendo, vamos nos livrando de um probleminha aqui, outro acolá; mas outros tantos surgem e, em certo momento, já não sabemos o que fazer, a vida se assemelha a um longo túnel sem nem um resquiciozinho de luz no final. O que me parece mais óbvio a fazer é sentar e chorar, contudo isso não combinaria com minha maturidade nem com meus fiozinhos brancos que o espelho tem me revelado nos últimos meses. Então eu vou seguindo a vida sem nem mais questionar o sentido dela, esperando tão-somente o fato inevitável que me anestesiará de todas as dores para sempre.
Em 11/10/2009
terça-feira, 27 de abril de 2010
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Sempre existirão infinitas possibilidades além de apenas sentar e chorar, e algumas delas estão na lista dos "desejos pendentes"..
ResponderExcluirEsse texto não é meu, é do meu eu-lírico.
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